O rei está nu

11 comentários

Imagine a seguinte cena:
Uma dupla de criação está trabalhando num comercial de TV para uma marca de chocolate. De repente o redator diz: "Tive uma puta idéia! Vamos fazer um filme com um gorila tocando bateria, naquela música "In The Air Tonight", do Phil Collins! Não é genial?". O diretor de arte, sem entender o que é que uma coisa tem a ver com a outra, mas não querendo ser visto como alguém menos inteligente, finge que entendeu e dá até uma sugestão: "Legal! Esse gorila poderia até ter uns trejeitos e umas expressões que lembrem o próprio Phil Collins...".

Daí chega o diretor de criação e os dois apresentam a grande sacada. Assim como o diretor de arte, ele não quer que ninguém questione a sua capacidade de enxergar uma idéia tão boa, tão grandiosa.

Assim o roteiro segue seu caminho, obtendo do atendimento, do diretor de atendimento e do dono da agência o mesmo comportamento de quem se recusa a admitir que não entendeu. Afinal, ninguém gosta de admitir que não entendeu a piada.
Chegando no cliente, o efeito se propaga entre gerentes, diretor de marketing, vice presidente e CEO. E, obviamente, é aprovado sem ressalvas.Talvez em casa, contando o filme pra mulher, alguém tenha confessado que não entendeu a idéia.
- Mas é só isso? Um macaco tocando bateria?
- É.
- Igual o Phil Collins?
- Bem parecido, só que com mais cabelo.
- Tem certeza que você não se distraiu no meio da apresentação? De repente tem alguma parte que explica a mensagem...
- Não, não. O presidente achou tão bom que pediu pra passar mais 5 vezes.
- Olha, também não entendi. Mas fica quieto e diz que você adorou, porque senão vão te transferir pro almoxarifado.

Alguns meses depois, sem encontrar pela frente uma única pessoa que perguntasse que diabos é isso (ou, se alguém perguntou, deve ter sido transferido para o almoxarifado), o filme do macaco tocando bateria para vender chocolate é inscrito no Festival de Cannes. E o exigente júri, formado pelos melhores publicitários do planeta, concede a esta peça o almejado, invejado e cobiçado Grand Prix, a premiação máxima do Festival. Provavelmente, por unanimidade.

Essa é a minha explicação. Se você tem outra, por favor divida comigo. O filme está logo abaixo.

Rogério Alves enviar p/ um amigo ,

11 comentários

Marcelo Dalbosco 30.Jun.08
Caro Rogério,

Provavelmente você não lembra de mim, tive uma passagem rápida pela OneWG em 2006. Hoje estou em São Paulo.
Tenho minha explicação para o flime da Cadbury´s.
Pra começar a dupla de criação, o diretor de criação e o diretor do filme são a mesma pessoa, Juan Cabral, o argentino FDP, autor da série Balls, Paint e Play-Doh para Sony Bravia. Apenas esse fato já explica o tal medo de não parecer tão inteligente.
Outra coisa, veja a declaração do diretor de marketing da Cadbury's, que disse: 'Sim, o filme não quer vender nenhum atributo de produto. Depois de mais de 100 anos anunciando, o Dairy Milk é conhecido por 100% dos ingleses. Ficar repetindo atributos de produto seria entediar a audiência, por isso resolvemos fazer entretenimento puro'.
Segundo Marcello Serpa, na palestra de encerramento da semana de criação, esse é um dos caminhos que a publicidade pode seguir no futuro, o do entretenimento puro ou, como alguns preferem, uma criação mais livre e aberta a interpretações, algo que poderíamos chamar de "artvertising", não sei.
O lance é que o povo aqui em Sampa pagou um pau pra esse filme desde que ele apareceu na web e, pelo menos um ouro já era esperado por quase todos.
O júri confirmou a expectativa, premiando uma iniciativa ousada e criativa, de uma grande marca, associada a uma grande agência que possiu um dos maiores nomes da publicidade mundial como diretor criativo. Venceu um filme que entregou o que a publicidade já vinha prometendo havia um tempo. Eu acho que foi isso...
Abraços. Marcelo.
Rogério 30.Jun.08
Olá, Marcelo.
Obrigado pelo comentário.
Acho que a sua explicação situa muito bem o contexto em que o filme foi gerado (o que derruba por terra minha teoria). Porém, continuo não entendendo a mensagem. Talvez eu ainda esteja preso no tempo em que fazer propaganda exigia não apenas surpreender, mas também transmitir algum pensamento ou conceito.
Olhando os comentários sobre este filme no youtube, feitos por pessoas normais, fico mais tranqüilo ao perceber que não fui o único a achar que faltou sentido no comercial.
Acho que para ganhar Grand Prix, um filme precisa ter uma idéia que solucionecom originalidade um problema de comunicação. Apesar do gorila, este comercial não tem macaco.
Rafael Ziggy www 30.Jun.08
Fala Rogério! Também não entendo como ganhou Grand Prix. Talvez porque as idéias estão cada vez mais repetidas. A puta idéia, a mega produção, o filminho engraçado cedeu espaço ao non-sense. Ou seria à ausência da idéia?

Será que os criativos ao invés de correr atrás da grande idéia vão ter que fazer o exercício de descontrução da mesma?

Assunto rende muito pano pra manga. Na época que saiu escrevi um post, na minha cabeça o filme foi feito só pra gerar esse espanto mesmo, gerar boca-a-boca nem que fosse pra "putz viu que coisa ridícula da cadbury ontem?"

Enfim. Vai saber:

http://www.simviral.com/2007/09/o-que-um-gorila-tem-a-ver-com-chocolate/
Caio Costa www 30.Jun.08
Rogério, a sua versão pra a história me lembrou do caso engraçado de um sapo rosa em uma campanha de geladeira que foi aprovado por todas as matrizes do mundo justamente pelo motivo q vc escreveu.

Tbm acho q o Grand Prix deve ir pra uma campanha que solucione problemas e não apenas distrair a audiência.
leo silveira 01.Jul.08
a resposta de nosso amigo Marcelo é bem simples. A peça está além do seu entendimento. A preguiça pelo esclarecimento vira uma saudável inveja, do tipo que se transforma em manifesto público. Se grandes agências produzem "absurdos", por que as pequenas não ganham nada com os seus?
Sergio 01.Jul.08
Caramba, Leo. Seu comentário é mais difícil de entender do que o comercial do macaco.
Milena Gouvêa www 01.Jul.08
Rogério, fiquei aliviada também. Não tinha entendido coisa nenhuma deste comercial, e entendi muito menos quando ganhou GP em Cannes! Tentei bolar uma justificativa conceitual na minha cabeça, e mesmo assim não dá. Acho que é como o Marcelo falou, "entretenimento puro". Estranhei muito. Ao meu ver, é propaganda pra publicitário, não pra cliente. Funcionou pra ganhar Cannes, mas e na rua, será que funciona?
Regina Valadares 03.Jul.08
Após assistir o vídeo cheguei a conclusão que esta propaganda é uma nova modalidade na publicidade: Cada um vê de uma maneira e interpreta como bem entender. Não acho que é digna de um GP em Cannes, afinal qualquer um que está cansado demais para pensar chegaria a esta “idéia”. Muito lógico, não?
Mas os publicitários conseguem enxergar as idéias em diversos ângulos e talvez por isso este comercial tenha ganhado tal prêmio.
De qualquer maneira a explicação de Rogério é mais interessante. E até mais provável, eu diria.
Katiany Pinho 04.Jul.08
Caraca, que bom saber que o nem o Rogério entendeu! hahahaha... Fiquei com medo de comentar aqui na agência, pois não temos almoxarifado!

Agora sério: comentando com o pessoal aqui, fomos buscar na tradução da letra uma esperança de entender a sacada, e nada.
O refrão diz "eu posso senti-lo hoje à noite no ar".
Chegamos a pensar em algo tipo: o macaco comeu o chocolate e tomado pela sensação "orgásmica", causada pelo produto, explodiu em um êxtase musical!
Ah, desisto! rs
Katiany Pinho 04.Jul.08
A comunidade de redatores no orkut está debatendo sobre o filme: http://www.orkut.com.br/CommMsgs.aspx?cmm=48513&tid;=5218073269627516624
Mauricio Peixoto www 06.Jul.08
Eu entendi. Só não vou explicar aqui pra todos vocês não irem pra almoxarifado.

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